sexta-feira, 8 de junho de 2012

MISSÃO INTEGRAL NÃO É TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

  O QUE É MISSÃO INTEGRAL?




Lauberti Marcondes

Segundo Padilla o livro "O que é Missão Integral" é uma coletânea de escritos de trincheira, que surgiram em resposta às exigências do momento. Portanto são simples e espontâneos, mas correm o risco de improvisações e generalizações inadequadas. O objetivo do autor é contribuir com a causa da missão integral, que segundo ele entende é a causa da missão do Reino de Deus e sua justiça.

Nos três primeiros capítulos o autor situa a Missão Integral em relação ao conceito missiológico tradicional. Enfatiza as semelhanças e diferenças com a missão transcultural, a importância de uma fundamentação teológica bíblica para avaliar a fidelidade no cumprimento da missão cristã e a abrangência da Grande Comissão (Mateus 28:16-20) para uma correta compreensão do chamado dado a Igreja por Cristo para que ela faça discípulos que reflitam a glória de Deus.

Apesar de suas proezas, o modelo de missão transcultural afetou negativamente a missão da igreja, pois a concebia mais em termos geográficos, com o objetivo de "salvar almas" e "plantar igrejas" através de missionários especialmente vocacionados para esta tarefa. A maior parte da igreja ficava apenas no suporte. Segundo Padilla, o conceito de missão integral é um resgate da visão bíblica para uma igreja que foi exposta a quatro dicotomias:

a) Há igrejas que enviam e outras que recebem missionários;
b) Há o lar e o campo missionário em algum pais pagão;
c) Há missionários vocacionados e cristãos comuns.
d)  Há uma atividade missionária especial e uma vida cristã normal.

As propostas teológicas da Missão Integral procuram resolver esta questão da seguinte maneira:

a) Todas as igreja enviam e recebem missionários.
b) O mundo todo e suas necessidades são o campo missionário da igreja.
c) Todos os cristãos são chamados a comprometerem-se com a Missio Dei.
d) A vida cristã em todas as suas esferas é o cumprimento do testemunho de Cristo.

Para tanto, se debruça em diversos textos bíblicos: Atos 1:8; 1Pedro 2:9; Mateus 9:36; Efésios 4:12; Mateus 25:24-44; Mateus 13:52; Atos 14:21; Salmos 78:3-4

 A Grande Comissão de Mateus 28 que impulsionou o movimento missionário de Willian Carey no final do séc.18, não se reduz apenas a um mandato evangelístico. Nela temos uma dimensão universal da autoridade de Cristo (18) e o mandato para fazer discípulos (19) que confessem a Cristo como Senhor e vivam a luz dessa confissão. Essa tarefa é executada "indo", "integrando os convertidos" e "ensinando-os a viver". Um chamado a missão integral de formar cidadão do Reino de Deus.

Segundo o que Padilla expôs nos capítulos 4, 5 e 6 a ação social esta no seio do testemunho cristão, que deve ir muito além das palavras. Esta visão ficou clara em 1974 no Congresso de Lausanne e foi confirmada em 1989 no Congresso de Manila. Entre outras coisas, a declaração do Pacto de Lausanne dizia: “tanto a ação social como a evangelização são aspectos essenciais da missão da igreja; a proclamação do evangelho é inseparável da manifestação concreta do amor de Deus”. Apesar de toda tentativa posterior de reduzir este conceito a proclamação oral do evangelho (pesquisa de Valdir Steuernagel), o congresso de Manila ratificou que a estreita relação entre missão e consciência social já era parte do movimento evangélico em âmbito mundial, pois mesmo com a ausência de muitos latinos-americanos, foi confirmada por outras vozes o compromisso social do povo evangélico. Não era só uma questão de ser algo bom e desejável, pois o anuncio do Evangelho é inseparável do serviço ao próximo e da comunhão em amor. Tal prática não é algo novo mas um resgate do estilo de vida de Jesus Cristo, que esta em harmonia com a mensagem dos apóstolos e profetas e cumpre o Grande Mandamento do Amor, sendo um instrumento para Glória de Deus. (Tiago 2:1-13; Romanos 10:17)


Nos capítulos 7 e 8 René Padilla trata da questão da igreja ser uma comunidade solidária. Formada por pessoas que foram resgatadas da sua vã maneira de viver e agora vivem para Deus. A igreja é a proposta de Deus para uma “nova humanidade”, que se desprendeu do individualismo e por isso, cada um que escuta a voz de Cristo, se junta a outros discípulos na empreitada de cumprir o propósito de Deus. O evangelho promove a restauração gradativa de todas as relações sociais que foram corrompidas pelo pecado, esta é uma missão que nasce e se fortalece numa comunidade onde o amor e a fé se encontram. Neste cenário, surge a necessidade de um compromisso maior com a oração, pois a missão cristã começa e termina em Deus. Somos seus colaboradores. Não podemos cair no engano do ativismo, mas através de nossas orações precisamos ser levados a um maior compromisso com o que Deus esta fazendo no mundo, e desta forma encarar e responder as demandas da realidade que nos cerca.

Evidenciar os sinais da presença do Reino de Deus na terra é a tarefa prioritária da Igreja, segundo o que Padilla expõe nos capítulos 9, 10 e 11. Para tanto, lança mãos dos ensinos de Dietrich Bonhoefeer (1906-1945), mártir cristão levado a forca por ordem de Hitler. Dietrich mostrou que há duas maneiras de fugir das responsabilidades com o Reino de Deus. Evadir-se, transformando a mensagem do evangelho em algo puramente religioso que nada tem a ver com este mundo e, secularizar-se, tentando construir um mundo melhor com as próprias mãos. Ambos não crêem no Reino de Deus. Como cristãos somos chamados sim, a interagir com a terra, mas cientes de que ela é transitória e pertence ao Senhor e por isso deve manifestar a Sua Glória. A comunidade da ressurreição, a igreja, é composta por gente que crê em Deus, que ama a terra de Deus e que ama o povo da terra, gente que é inundada pela compaixão de Jesus Cristo, o que é essencial onde a maioria da população é explorada e vive na miséria. Nestes lugares quando o Reino avança as pessoas têm suas mentes iluminadas e sua vida recebe mais sabor a fim de serem cooperadores de Deus na transformação de seu mundo. Ao atender essa vocação de ser sal da terra e luz do mundo, a igreja manisfesta respostas múltiplas de como a ação cristã pode alcançar os necessitados, e dessa forma, desenvolve novos cidadãos que serão os futuros agentes de transformação integral na sociedade. (Marcos 8:1-10; Lucas 10:33; 1 João 3:17-18)


Promover a justiça social é o compromisso integral que o evangelho de um Deus Justo exige daqueles que foram resgatados por ele, segundo Padilla nos capítulos 12, 13 e 14. Para tanto, ele evocou um defensor dos direitos humanos, o pastor norte americano, Martin Luther King Jr: “Para os sonhos deixarem de ser meros sonhos, o amor precisa se transformar em ação não-violenta em prol de mudanças sociais concretas. E para que não seja apenas o sonho de um homem morto, os vivos precisam se levantar e assumir seus papéis a partir da memória daqueles que lutaram defendendo a justiça; o livro “Justiça para Todos” do profeta negro John M. Perkins, que voltou a sua cidade natal para começar uma humilde creche, e a viu se transformar num ministério cristão integral que se autofinancia e é dirigido por líderes locais. Padilla descreve cinco qualidades do livro e da obra de Perkins. a) Um testemunho de sua jornada pessoal; b) um chamado profético para que a igreja saia de sua comodidade; c) importantes implicações sociais do evangelho; d) uma estratégia para mudanças; e) um convite a colaborar com Deus na transformação do mundo.

O despertamento da consciência social evangélica nos últimos anos tem contribuído para a promoção da justiça social, mas os desafios ainda são grandes. A começar pelo Seminário Evangélico de Teologia em Cuba, onde em 1957 Gonzalo Baez-Camargo realizou uma série de conferências em que estabeleceu diversos princípios para uma frente de ação cristã na sociedade, dando origem ao livro “El comunismo, El cristianismo, y los cristianos”. Em 1969, quando falar de responsabilidade social cristã já havia deixado de ser algo de comunistas, Samuel Escobar apresentou sua palestra no CLADE I, em Bogotá. Em 1970 surgiu um precioso ensaio reformado de Pedro Arana de Quiroz. Em 1974 o Pacto de Lausanne. Em 1977 Ronald Sider lança seu livro “Cristãos Ricos em Tempos de Fome”. Em 1988 Valdir Steuernagel defendeu uma tese de doutorado destacando a importância da centralidade da justiça em relação a responsabilidade social. Em 1990 a declaração de Oxford. Mas, segundo a crença de Padilla, a tarefa mais urgente para os cristãos no campo da ética social é dar a justiça o seu lugar de direito nas relações econômicas.

Nos capítulos finais, Padilla se preocupa com a integridade com que os valores do Reino de Deus são transmitidos no cumprimento da missão cristã na sociedade. Preocupa-se em que num meio tão sofrido, com a América Latina, não se utilize de meios coercitivos para anunciar o evangelho, mas que o amor e a alegria sejam a persuasão que conquiste o coração do povo, manifestando que todos são iguais perante Deus. Mostrando que não podemos ser uma igreja sem cruz, mas revelando como o sofrimento é essencial a missão, como o foi na vida de Jesus, o Servo-Sofredor. Assim, não podemos ser uma igreja que se conforme aos padrões do mundo. Precisamos avançar contra as estruturas escravizantes, tendo uma pregação fundamentada na Bíblia, afim de que a transformação que ela promova alcance todas as esferas da vida, levando o ser humano para mais perto de Deus e de seus semelhantes. Cientes de que a vontade expressa de Deus é que as pessoas alcancem uma vida que encontra seu significado em Jesus Cristo. Não como um mero supridor de desejos materiais, mas alguém que veio trazer vida para todas as esferas da existência, vida abundante. Segundo Padilla, a nossa missão como igreja se deriva desta missão de Jesus, que é integral.


O campo missionário da igreja é toda terra habitada. Gente que precisa ser alcançada e transformada pelo poder do evangelho vivido por pessoas transformadas por ele. Portanto, esta é uma missão mundial, que transcende as barreiras e divisões humanas. Segundo o autor, essa missão somente pode ser executada em fidelidade ao Senhorio de Jesus Cristo e sua mensagem, pois essa é a única chave para promover a Glória de Deus nesta terra corrompida pela maldade.
Opiniões sobre missão Integral 

A missão integral da Igreja é basicamente evangelização e ação social. Dizemos "basicamente" porque a missão integral da Igreja é na verdade universal. Abrange vários aspectos. Evangelizar é a sua qualidade primordial. A Igreja que troca a evangelização por qualquer outra responsabilidade social está fora de propósito e, portanto, descaracterizada como igreja de Jesus Cristo. Por outro lado, que nenhuma igreja pense ser mais espiritual porque optou pela evangelização. Concordamos que uma igreja possa fazer uma opção temporária entre evangelizar e assistir ao necessitado, mas nunca uma opção permanente. A verdadeira espiritualidade do povo de Deus se expressa em sua integralidade. A mesma igreja que proclama as boas novas do reino deve ser a mesma que estende a mão ao necessitado.
Missão integral é uma realidade bíblica. Os mitos não fazem sentido quando são resultados baratos de um reducionismo evangélico, polarização entre evangelização e ação social, e quando se deixa de contemplar o indivíduo em sua totalidade. Os mitos (pelo menos os que aqui estudamos) deturpam a missão integral da Igreja.
Se queremos atentar para o ensino bíblico, então devemos almejar por uma igreja brasileira autêntica, que não seja ela mesma um mito, mas a realidade bíblica de uma missão integral em nossa sociedade.

Rev Josivaldo de França Pereira
 


"Sustentamos que uma evangelização que não toma conhecimento dos
problemas sociais e que não anuncia a salvação e a soberania de Cristo
dentro do contexto no qual vivem os que ouvem, é uma evangelização
defeituosa, que trai o ensino bíblico e não segue o modelo proposto
por Cristo, que envia o evangelista".
(ESCOBAR, Samuel. A responsabilidade social da Igreja. Editado por STEUERNAGEL, Valdir Raul. A Serviço
do Reino: um compêndio sobre a missão integral da igreja. Belo Horizonte: Missão Editora, 1992. p. 20.)
"Quando o evangelicalismo brasileiro não estava contaminado pelas versões de Teologia da Libertação e Teologia da Prosperidade a assistência e a dignidade dos pobres eram mais bem trabalhadas, não em discursos piedosos, mas na prática evangelística. Que possamos voltar a essa realidade".(http://www.teologiapentecostal.com)

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