ANTES DO PÚLPITO EXISTE UM SER HUMANO


Há uma verdade que precisa ser lembrada com frequência: antes de existir um pastor, existe um homem.

Antes do púlpito, existe uma mesa de jantar. Antes do sermão, existe um quarto de oração. Antes da liderança pública, existem lágrimas que ninguém vê, batalhas silenciosas, alegrias simples, responsabilidades familiares e uma alma que também precisa ser cuidada.

O pastor não deixa de ser humano no dia em que recebe a imposição de mãos. Pelo contrário, sua humanidade continua sendo o lugar onde Deus manifesta Sua graça. Afinal, o próprio Senhor escolheu homens de carne e osso para anunciar o Evangelho, para que ficasse evidente que o poder pertence a Deus, e não aos seus servos.

Talvez um dos maiores perigos do ministério pastoral seja quando o homem começa a confundir o CPF com o CNPJ.

O CPF representa a pessoa: o filho, o marido, o pai, o amigo, o discípulo de Cristo. O CNPJ representa a instituição, a função, as demandas, a agenda, os resultados e as expectativas que cercam o ministério.

Quando o CNPJ passa a engolir o CPF, o pastor deixa de viver como homem para existir apenas como função. Sua identidade passa a ser definida pelo que faz, e não por quem é em Cristo.

Nesse momento, algo precioso começa a morrer.

Ele já não descansa porque acredita que precisa estar sempre disponível. Já não chora porque imagina que precisa parecer forte. Já não pede ajuda porque sente que precisa ter todas as respostas. Já não admite fraquezas porque pensa que sua autoridade depende da imagem de perfeição.

Mas foi justamente o apóstolo Paulo quem declarou que o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza.

O pastor não foi chamado para ser sobre-humano. Foi chamado para ser fiel.

O problema nunca foi reconhecer a própria humanidade. O verdadeiro perigo está em negá-la.

Quando um pastor perde sua humanidade, inevitavelmente perde sua sensibilidade. E quando perde a sensibilidade, corre o risco de transformar pessoas em números, almas em projetos, culto em desempenho e ministério em profissão.

O púlpito deixa de ser um altar e se torna apenas um palco.

A oração se torna preparação para pregar, e não mais encontro com o Pai.

A Bíblia passa a ser estudada para ensinar aos outros, mas deixa de alimentar o próprio coração.

A família recebe o que sobra da agenda ministerial.

E, aos poucos, o homem desaparece atrás do título.

É por isso que o ministério nunca pode ser maior do que a comunhão com Deus.

O chamado não substitui a intimidade.

A unção não substitui o caráter.

Os aplausos da igreja nunca substituirão a aprovação do Pai.

Deus jamais teve interesse apenas em pastores eficientes. Seu desejo sempre foi formar homens segundo o Seu coração.

O rebanho precisa de um pastor que pregue bem, mas precisa ainda mais de um pastor que viva bem.

Um homem que saiba subir ao púlpito, mas que também saiba voltar para casa.

Que abrace a igreja sem abandonar a família.

Que conduza pessoas a Cristo sem perder o caminho do secreto.

Que ensine sobre graça, enquanto continua vivendo pela graça.

No fim das contas, Deus não pedirá contas apenas dos sermões pregados, dos eventos realizados ou dos projetos concluídos.

Também perguntará sobre o coração.

Porque antes do púlpito, existe uma vida.

E é essa vida, escondida em Cristo, que sustenta tudo o que acontece diante das pessoas.

Quem preserva sua humanidade protege seu ministério. Quem sacrifica sua humanidade para manter o ministério, mais cedo ou mais tarde descobrirá que perdeu ambos.

"Apascentai o rebanho de Deus que está entre vós... servindo de exemplo ao rebanho." (1 Pedro 5:2-3)

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