AMO, LOGO EXISTO
AMO, LOGO EXISTO
Ser ou não ser: eis uma questão de amor
O amor e o “ser”: uma interpretação de Paulo
“Não devemos nos contentar em falar do amor ao próximo, mas praticá-lo.”
Albert Schweitzer
Cogito, ergo sum — “Penso, logo existo”
Para René Descartes, o pensamento garante a compreensão da própria existência: “Eu duvido, logo penso; penso, logo existo”. Para o filósofo, o ser humano é um ser pensante, independente e autônomo.
Descartes questionou e colocou em dúvida todo o conhecimento até então aceito como correto e verdadeiro. Ao duvidar de tudo aquilo que julgava saber, concluiu que havia uma única certeza: se estava duvidando, necessariamente estava pensando; e, se estava pensando, então existia.
Não apenas Descartes, com a célebre frase “Penso, logo existo”, mas também William Shakespeare, com “Ser ou não ser, eis a questão”, levam-nos a refletir sobre a existência. Talvez essa seja uma das questões mais relevantes e discutidas de toda a história da humanidade.
O apóstolo Paulo compreendeu que, sem amor, “eu nada seria”; isto é, nada sou ou não existo verdadeiramente — considerando aqui o verbo “ser” no sentido de existir:
“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tivesse amor, seria como o bronze que soa ou como o címbalo que retine. Ainda que tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência; ainda que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse amor, eu nada seria.”
1 Coríntios 13:1–2
Mesmo que Paulo tenha utilizado a expressão “nada seria” sem a intenção de negar literalmente a existência humana, esse “não ser” aponta para uma vida vazia e sem propósito. Uma vida sem amor pode perder o sentido, e o vazio existencial pode provocar angústia, medo e desesperança. Em situações extremas, a morte pode passar a ser vista, equivocadamente, como a única saída para o sofrimento.
Da união amorosa entre duas pessoas pode nascer um projeto de vida: um ser que, antes mesmo de nascer, já existe nos sonhos e nas expectativas de seus pais. É uma vida esperada e alimentada por sonhos de amor.
Durante a gestação, a vida humana encontra-se no ventre materno e necessita de cuidado e proteção. Após o nascimento, a criança continua precisando de proteção, carinho, alimentação, ternura, contato corporal e, sempre que possível, da presença afetiva de seus responsáveis. Por meio dos estímulos recebidos, ela começa a descobrir a si mesma e a desenvolver suas potencialidades.
Não podemos mensurar completamente os danos emocionais causados pelo abandono e pela ausência de vínculos afetivos na infância. Essas experiências podem contribuir para a baixa autoestima, a insegurança, a sensação de não pertencimento e diferentes comportamentos autodestrutivos. Em alguns casos, a pessoa pode viver como se estivesse apenas ocupando um espaço, pedindo constantemente licença para existir.
Amar e ser amado faz parte da nossa constituição psíquica. A ausência desse amor pode abrir lacunas na alma que, por vezes, são preenchidas por falsos amores: relacionamentos que escravizam, dominam e aprisionam, marcados pela possessividade e por paixões doentias.
Nosso desejo de receber amor incondicional é frequentemente frustrado nos relacionamentos humanos, pois a nossa capacidade de amar é limitada. Ao longo da vida, acumulamos feridas que podem afetar nossa compreensão do mundo, das pessoas e de nós mesmos.
Os mecanismos de defesa que desenvolvemos podem reforçar interpretações equivocadas da realidade. Uma pessoa retraída e insegura, por exemplo, pode considerar as outras pessoas hostis e sentir-se constantemente rejeitada. Pode acreditar que todos conspiram contra ela, projetando nos outros sua própria desconfiança. Assim, corre o risco de provocar justamente aquilo que mais teme: a solidão e a rejeição.
Em seu livro Quem me roubou de mim?, o escritor, filósofo, teólogo e sacerdote Fábio de Melo aborda, sob perspectivas filosófica e psicológica, a experiência de ser roubado de si mesmo — o chamado sequestro da subjetividade.
Quando alguém permite que suas emoções e paixões dominem completamente sua identidade, pode afastar-se de si mesmo. O caminho de retorno consiste em recuperar a própria consciência e não se tornar escravo de relacionamentos possessivos e doentios.
Fábio de Melo retoma o antigo sentido grego da paixão como uma forma de passividade, sofrimento e submissão a uma ação exterior exercida sobre o corpo e a vontade.
Amar e ser amado é essencial para a nossa saúde psíquica, emocional e espiritual. O verdadeiro amor não escraviza, não apaga a identidade e não impede o outro de existir. Pelo contrário: o amor acolhe, protege, liberta e atribui sentido à existência.
“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”
João 3:16
Se o amor dá sentido à existência, podemos afirmar:

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